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Por Que Um Ministro Metodista Progressista De 79 Anos Ateou Fogo Nele Mesmo

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Na noite de uma segunda-feira, 23 de Junho, 2014, Charles Moore — um reverendo metodista aposentado de 79 anos — dirigiu até o estacionamento de uma loja Dollar General na sua cidade natal, a zona rural de Grand Saline, Texas, se ensopou de gasolina e tacou fogo nele mesmo. Por horas, posteriormente, nem as testemunhas de Moore nem a família dele tinha ideia do porquê.

Moore cresceu em Grand Saline — uma cidadezinha sossegada, que explora a pecuária e a agricultura, de apenas 3.136 habitantes — mas ele partiu em 1954 para estudar em uma universidade. Tirando uma breve estadia logo após seu primeiro divórcio em 1978, ele não tinha passado muito tempo por lá. Pelos últimos sete anos, ele vivia com sua terceira esposa Barbara em Allen, um subúrbio próximo a Dallas, onde ele brincava com seus netos no parquinho local, assistia jogos dos Cowboys com o marido de sua enteada, resmungava sobre a política do Tea Party e escrevia sozinho em seu escritório.

Porém, o que eles não sabiam, é que ele tinha entrado em depressão após sua aposentadoria em 2000. Depois de décadas de pregação em igrejas por todo o Texas, reconstruindo comunidades carentes ao redor do mundo e de ativismo em favor de prisioneiros no corredor da morte, pessoas pobres e membros da comunidade LGBT excomungados, ele escreveu no seu diário, “Eu não estou orgulhoso da inibição [que aqueles anos de trabalho]representa ou dos perigos físicos que foram evitados.” Ele sentia vergonha por estar “completamente inativo” desde a sua aposentadoria e por viver em um subúrbio de Dallas “arquiconservador”, complementando que ele “tem sido nada além de um covarde servil” desde então.

“Minha vida foi, e é, um grande sofrimento por causa dessas questões,” Moore lamentou, “e eu não fiz absolutamente nada por nenhuma delas por muito tempo.”

Moore acreditava que verdadeiros discípulos de Jesus tinham uma responsabilidade ética em atacar as injustiças sociais, políticas e econômicas do mundo. Ele também viveu de acordo com o credo de John Wesley, fundador do Metodismo, que dizia que o indivíduo deveria sempre fazer o bem, mesmo que isso envolva adotar posições impopulares ou ser rejeitado por seus parentes e amigos e pela comunidade. Mas depois de uma vida trabalhando como um progressista dentro da hierarquia conservadora da Igreja, Moore se cansou e não sabia mais como cumprir seu propósito sem uma igreja ou congregação para liderar.

Ele considerou se levantar e gritar sobre as questões sociais durante as cerimônias da igreja “como os profetas do passado.” Ele também pensou em protestar em público só para ser preso, mas achou que qualquer das opções poderia envergonhar sua esposa e sua família.

“Eu sou uma alma paralisada… qualquer caminho que eu tente parece fechado para mim,” ele escreveu. “Contudo,” ele continuou, “tem uma coisa que eu ainda tenho total controle: que é, o modo da minha morte.”

Ele leu um artigo do New Yorker, de julho de 2013, chamado “Em chamas: Uma onda de autoimolação se espalha pelo Tibete” sobre centenas de budistas tibetanos contemporâneos que se imolaram para protestar contra o domínio chinês. O pensamento inflamou sua imaginação, apesar dele ter considerado o poder social do fogo bem antes disso: O símbolo oficial da Igreja metodista tem duas chamas, cada uma representa as encarnações de Deus através do fogo. No Antigo Testamento, Deus fala com Moisés através de um arbusto em chamas e no Novo Testamento, Deus concede fluência em línguas estrangeiras aos apóstolos durante o Pentecostes enquanto aparecia como línguas de fogo sobre as cabeças deles. Em ambos os casos, as chamas expressam a vontade de Deus.

Moore também tinha uma admiração por William Tyndale, um erudito protestante do século 16 que morreu estrangulado e foi queimado na fogueira por traduzir a bíblia para o inglês comum. Em uma nota de 2013, Moore escreveu, “Suas últimas palavras foram, ‘Oh Senhor, mude o coração do Rei da Inglaterra.’ Menos de um ano depois havia uma bíblia com leitura vernacular em todas as igrejas da nação.” Pelos cálculos de Moore, a dor da autoimolação duraria apenas alguns momentos e possivelmente atrairia atenção mundial para qualquer causa que ele escolhesse.

Mas se matar de um modo tão dramático deixaria, sem dúvidas, consequências para seus parentes e amigos. E se a polícia descobrisse seu plano de antemão e mantivesse ele na cadeia ou em um hospital psiquiátrico? E se ele tivesse contado a um membro da família e a polícia posteriormente o prendesse por não impedir o seu ato horrendo? E se ele sobrevivesse à essa horrível queimadura?

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O famoso e também infame Reverendo Metodista aposentado Charles Moore. (imagem via William Renfro)

A ideia perseguiu Moore, e ele escreveu que os anos seguintes foram como “um longo Getsêmani” de solidão excruciante — uma referência ao jardim onde Jesus rezou sozinho na noite anterior à sua crucificação. Nessa reza, Jesus professou que ele morreria de boa vontade se servisse à vontade de Deus; Moore sentia o mesmo.

Ele escolheu uma data para seu fim flamejante, e quanto mais se aproximava ele se tornava mais distante e irritável com a família e amigos, culpando seu humor sombrio pelas histórias do noticiário e dor no pé. Mas ele já tinha se decidido. Imolação era a única forma de morrer que permitiria que ele chamasse atenção pública enquanto expressava uma maior intolerância contra a injustiça — era o único jeito que ele poderia morrer por um propósito de uma maneira que poderia ser comprovada. E se ele tivesse sorte, também seria a última coisa que ele faria.

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Autoimolação não é como outras formas de suicídio. Responde por menos de 1% de todos os suicídios nos EUA e acontece com muito mais frequência como forma de protesto político em países asiáticos em desenvolvimento do que lá. Por exemplo, quando o vendedor de rua turco de 26 anos Mohammad Bouazizi ateou fogo em si mesmo em Dezembro de 2010, seu protesto contra o tormento causado por funcionários públicos corruptos ajudou a inflamar a Primavera Árabe. Em contraste, quando Moore ateou fogo em si mesmo quatro anos depois, somente cerca de 45 websites publicaram a história; o Tyler Morning Telegraph perguntou de maneira diminutiva se ele era um “Louco ou Mártir”. Tirando uma nova página no Wikipédia do Charles Moore, pouco aparentemente mudou como resultado.

Imolação também é muito mais dolorosa do que outras formas de suicídio. Os 900º a 1250º C das chamas rapidamente fritam a pele, queimando mais quente e mais profundo nas roupas. Quando a camada subcutânea da pele rapidamente se encolhe, ela se rasga, expondo a gordura corporal e alimentando as chamas ainda mais. A labareda consome todo o oxigênio, fazendo que os pulmões parem enquanto eles lutam por ar. A maioria das pessoas desmaiam ou morrem em 45 segundos devido a fumaça de monóxido de carbono.

Sobreviventes tem que aguentar meses (ou até mesmo anos) de hospitalização e cirurgias de transplante de pele para se curar devidamente. Durante esse período, os enfermeiros da unidade de queimados esfregam regularmente o paciente para retirar a pele podre, esfoliar qualquer tecido morto e então espalhar antibióticos nos músculos expostos e na nova pele em formação do sobrevivente — a dor é agonizante e frequente. Sobreviventes também têm que lidar com o trauma psicológico, cicatrizes extensas e deformação permanente, fazendo com que a morte seja quase preferível.

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